discografia

Conversa Ribeira

Ficha técnica

Gravado no Estúdio Zabumba entre julho e setembro de 2006.
Produção musical: Conversa Ribeira.
Produção executiva: José Carlos da Silva e Cooperativa de Música.
Engenheiro de gravação: Luiz Leme.
Mixagem: Luiz Leme e Conversa Ribeira.
Fotos: Dani Gurgel.
Ilustrações: Elinaldo Meira.
Projeto gráfico: Letícia Mendes e Sílvio Braz.
Todos os arranjos são de autoria do Conversa Ribeira

Resenha - Paulo Freire

Fiquei muito impressionado quando assisti pela primeira vez o Conversa Ribeira. Incrível como um grupo novo, em seu primeiro trabalho, consegue ter tanta personalidade. Escutando “Promessa de Violeiro”, pensava: “mas será que esta música é do Raul Torres ou deles?” Ficava na dúvida porque, da forma como apresentam Zé do Rancho, Celso Adolfo, Teddy Vieira, ou o próprio Torres, parece que as composições são também do Conversa Ribeira, tamanha a identificação e marca pessoal que colocam. De uns tempos para cá, venho notando certo movimento em alguns artistas, que têm estreita relação com um ser que admiro muito: o curupira. Este mito brasileiro tem fortes características: protege com unhas e dentes a mata, os passarinhos, os tamanduás, a cultura brasileira; mora dentro das árvores, as centenárias, que carregam toda a história do lugar. E tem os pés virados para trás. Anda sempre para a frente, mas quem segue suas pegadas acaba chegando lá no passado.

O Conversa Ribeira tem um sentido curupira muito forte.

E sinceridade para colocar sua personalidade na canção brasileira. Os integrantes, além de grandes músicos, são todos do ramo; com um pé na roça, sabem onde estão pisando. E buscam o risco de ir mais além, a serviço da arte, na desabalada carreira do curupira se embrenhando pelo mundo.

E a alegria ainda é maior, pois conseguem passar isso com emoção. Por mais que seus arranjos soem ousados e modernos, está tudo lá, o sentimento do homem do campo, o amor à sua terra, as paixões.

Ouvindo eles cantarem: "coração de violeiro, não é como outro qualquer/ é frágil que nem as pétalas de um mimoso mal-me-quer/ que cai com o vento das asas do beija-flor, do tié..." fico mesmo encantado com uma forma tão bonita de fazer música.

 

Promessa de violeiro

(Raul Torres/Celino)

Fruta madura que cai na árvore deixa o ingaço
Eu também quando morrer quero deixar o que eu faço
Vou deixar minhas modinhas todas feitas num compasso
Pra depois da minha morte os invejoso não dizer que eu fiz fracasso ai, ai

Vou deixar moda sentida, de amor, de beijos e abraços
Falando da minha vida vou contar esse pedaço
Já quiseram me matar por inveja com um balaço
Eu sou que nem boi arisco
Não saio do mato pra não cair no laço

Eu gosto do mês de agosto que tem tarde de mormaço
Eu pego a minha viola e nas modas dou repasso
O meu pinho é de primeira não faio os dedos nos traço
Eu canto em qualquer altura
Eu tando bão meu peito não tem cansaço ai, ai

Meu ranchinho é pequenino, nele não tem muito espaço
As paredes são de taipa misturada com bagaço
A minha cama é de couro dos bicho que eu
mesmo caço
Rancho puro sertanejo
Mas ele é meu, não tem ferro não tem aço

O Mineiro e o Italiano

(Teddy Vieira/Nelson Gomes)

O mineiro e o italiano viviam às barras dos tribunais

Numa demanda de terra que não deixava os dois em paz
Só em pensar na derrota o pobre caboclo não dormia mais
O italiano roncava nem que eu gaste alguns capitais
Quero ver esse mineiro voltar de a pé pra Minas Gerais

Voltar de a pé pro mineiro seria feio pros seus parente
Apelou para o advogado fale pro juiz pra ter dó da gente
Diga que nós semo pobre que meus filhinhos vivem doente
Um palmo de terra a mais para o italiano é indiferente
Se o juiz me ajudar a ganhar lhe dou uma leitoa de presente

Retrucou o advogado o senhor não sabe o que está falando
Não caia nessa besteira se não nós vamo é entrar pro cano
Esse juiz é uma fera, caboclo sério e de tutano
Paulista da velha guarda família de quatrocentos anos
Mandar a leitoa pra ele é dar a vitória pro italiano

Porém chegou o grande dia que o tribunal deu o veredito
Mineiro ganhou a demanda, o advogado achou esquisito
Mineiro disse ao doutor eu fiz conforme eu lhe havia dito
Respondeu o advogado o juiz vendeu, eu não acredito
Jogo meu diploma fora se nesse angu não tiver mosquito

De fato, falou o mineiro, nem mesmo eu tô acreditando
Ver meus filhinhos de a pé meu coração vivia sangrando
Peguei uma leitoa gorda foi Deus do céu me deu esse plano
De uma cidade vizinha para o juiz eu fui despachando
Só não mandei no meu nome mandei no nome do italiano.

 

Coração de Violeiro

(Murilo Alvarenga/Delamare de Abreu)

Naquela tapera velha que o tempo já destroçou
morou Zé Dunga, um pretinho valente trabalhador
foi o maior violeiro que Deus no mundo botou
Sua viola parecia um passarinho cantador

Trabalhava o dia inteiro feliz sem se lastimar
mas quando a lua formosa no céu pegava a brilhar
toda gente arrodeava pra ver o preto cantar
Sua viola de pinho fazia as pedras chorar

Acontece que a Carolina, cabocla espírito de cão
bonita como a sereia, mas que mulher tentação
pra judiar do pretinho fingiu lhe ter afeição
Querendo que nem criança brincar com seu coração

Coração de violeiro não é como outro qualquer
é frágil que nem as pétalas de um mimoso mal-me-quer
que cai com o vento das asas do beija-flor do tié
perde a vida quando a abelha vem pra lhe roubar o mel

Por isso pobre Zé Dunga, magoado pela traição
Não podendo mais aguentar no peito a grande paixão
agarrado na viola e debruçado no chão
foi encontrado com um punhal cravado no coração

 

Meu sítio, meu paraíso

(Zé do Rancho)

Quanto mais o tempo passa, mais aumenta a vontade 
De deixar esta saudade e voltar pro interior 
No lugar da fumaceira, desta vida agitada 
Vou andar pela invernada e sentir o cheiro de flor
 
É isso que vou fazer, não estou mais indeciso
Volto a viver no mato, meu sitio, meu paraíso

De manhã quando eu levanto, não me levanto sozinho 
Pois escuto os passarinhos alegrando a madrugada
Feliz vou lá pro curral, recolho as vacas leiteiras 
Eu adoro a barulheira do mugir da bezerrada

É isso que vou fazer, não estou mais indeciso 
Volto a viver no mato, meu sitio, meu paraíso

Quando é de tardezinha, pego a tralha de pescar 
Com a matula no emborná eu vou lá pro ribeirão
Jogo o farelo no poço e a peixarada se assanha 
E eu que conheço a manha, pego peixe de montão

É isso que vou fazer, não estou mais indeciso 
Volto a viver no mato, meu sitio, meu paraíso
 
Aos domingos lá no sítio é daqui bem diferente 
A gente passa contente rodeado de amigos 
Pescando e jogando malha, ó, quanta felicidade
É por isso que a saudade até hoje está comigo
 
É isso que vou fazer, não estou mais indeciso 
Volto a viver no mato, meu sitio, meu paraíso

Pingo d’água

(João Pacífico/Raul Torres)

Eu fiz promessa pra que Deus mandasse chuva
Pra crescer a minha roça e vingar a criação
Pois veio a seca e matou meu cafezal
Matou todo o meu arroz e secou meu algodão

Nessa colheita meu carro ficou parado
Minha boiada carreira quase morre sem pastar

Eu fiz promessa que o primeiro pingo d’água
Eu molhava a flor da Santa que estava em frente ao altar

Eu esperei uma semana, um mês inteiro
A roça estava tão seca, dava pena a gente ver
Olhava o céu, cada nuvem que passava
Eu da Santa me alembrava pra promessa não esquecer

Em pouco tempo a roça ficou viçosa
A criação já pastava, floresceu meu cafezal
Fui à capela e levei três pingos d’água
Um foi o pingo da chuva, dois caiu do meu olhar

 

Um Violeiro Toca

(Almir Sater/Renato Teixeira)

Quando uma estrela cai no escurão da noite
e um violeiro toca as suas mágoas
Então os olhos dos bichos vão ficando iluminados
Rebrilham neles estrelas de um sertão enluarado


Quando o amor termina perdido numa esquina
e um violeiro toca sua sina
Então os olhos dos bichos vão ficando entristecidos
Rebrilham neles lembranças dos amores esquecidos

 
Quando um amor começa nossa alegria chama
e um violeiro toca em nossa cama
Então os olhos dos bichos são os olhos de quem ama
Pois a natureza é isso, sem medo nem dó nem drama


Tudo é sertão, tudo é paixão, se um violeiro toca
A viola, o violeiro e o amor se tocam

 

Rei do Gado

(Teddy Vieira)

Num bar de Ribeirão Preto eu vi com meus olhos esta passagem
Quando champanha corria a rodo, no alto meio da grã-finagem
Nisto chegou um peão trazendo na testa o pó da viagem
Pro garçom ele pediu uma pinga, que era pra rebater a friagem

Levantou um almofadinha e falou pro dono eu não tenho fé
quando um caboclo que não se enxerga, num lugar desses vem por os pés
O senhor que é o proprietário deve barrar a entrada de um qualquer  

 

E principalmente nesta ocasião que está presente o rei do café

Foi uma salva de palmas gritaram viva pro fazendeiro
Quem tem bilhões de pés de café por este rico chão brasileiro
Sua safra é uma potência em nosso mercado e no estrangeiro
Portanto vejam que este ambiente não é pra qualquer tipo rampeiro

Com um modo bem cortês respondeu o peão pra rapaziada
Esta riqueza não me assusta, topo em aposta qualquer parada
Cada pé desse café eu amarro um boi da minha invernada
e pra encerrar o assunto eu garanto que ainda me sobra uma boiada

Foi um silêncio profundo, o peão deixou o povo mais pasmado
Pagando a pinga com mil cruzeiro disse ao garçom pra guardar o trocado
Quem quiser meu endereço que não se faça de arrogado
É só chegar lá em Andradina e perguntar pelo rei do gado

 

Coração Brasileiro

(Celso Adolfo)

No meu coração brasileiro plantei um terreiro, colhi um caminho
Armei arapuca, fui pra tocaia, fui guerrear
Meu coração brasileiro anda de lado, manca inclinado
De norte a sul a vida é o rumo que é mais procurado
Quando é de noite a vida silencia abro no peito três olhos pro céu
Nasço da luz de quem nasce o dia


Eu sigo manco, meu pé tem gabarro, minha crista tem gogo, fiz minha fé com tijolo de barro
Mas não regulo minha veia com isso, quando é de noite na vida eu me esguicho
No vão do espaço de procurar o coração que for brasileiro
Faço capina, chumbo a cravina, quero alegria, quero alegrar

A vida ferve na cuia do tempo, quem espera a dor não viaja no vento
Ranquei a hora do chão do momento, nasci de manhã, o sol veio olhar
Brilhou meu setembro, fiquei no lugar, mais cedo que a vida fui trabalhar

 

Caicó

(Villa Lobos/Teca Calazans/Milton Nascimento)

Ó, mana, deixa eu ir
ó, mana, eu vou só
ó, mana, deixa eu ir
para o sertão do Caicó

Eu vou cantando
com aliança no dedo
eu aqui só tenho medo
do mestre Zé Mariano

Mariazinha botou flores na janela
pensando em vestido branco
véu e flores na capela

 

Viola fora de moda

(Edu Lobo/Capinam)

Moda de viola
De um cego infeliz
Podre na raiz, ah, ah
Vivo sem futuro
Num lugar escuro
E o diabo diz, ah, ah
Disso eu me encarrego
Moda de viola
Não dá luz a cego, ah, ah

 

Vide Vida Marvada

(Rolando Boldrin)

Corre um boato aqui donde eu moro
Que as mágoas que eu choro são mal ponteadas
Que no capim mascado do meu boi
A baba sempre foi santa e purificada
Diz que eu rumino desde menininho
Fraco e mirradinho a ração da estrada
Vou mastigando o mundo e ruminando
E assim vou levando essa vida marvada

É que a viola fala alto no meu peito humano
E toda moda é um remédio pros meus desenganos
É que a viola fala alto no meu peito, mano
E toda mágoa é um mistério fora desse plano
Pra todo aquele que só fala que eu não sei viver
Chega lá em casa pruma visitinha
Que no verso e no reverso da vida inteirinha
Há de encontrar-me no cateretê

Diz um ditado tido como certo
Que cavalo esperto não espanta a boiada
E quem refuga o mundo resmungando
Passará berrando essa vida marvada
Compadre meu que envelheceu cantando
Diz que ruminando dá pra ser feliz
Por isso eu vagueio ponteando
E assim procurando minha flor-de-liz

 

Alma de gato

(Tavinho Moura)

Beira de fogo é bom
Lugar pra tudo contar
Histórias de amedrontar

Se reparar bem no ingá
No tom do jacarandá
Nos seres vivos que há

Trinca-ferro, alma de gato, saci da mata temperam a viola
Os seres vivos que há
O homem não tem razão da própria vida matar

Na trama da sapucaia macaco vai se enredar
O sapo vai coaxar e a cobra se sibilar
Na hora do rompe-ferro previsto de assombração
O curumim adormece
O curupira esse não

Carro de Boi

(Maurício Tapajós/Cacaso)

Que vontade eu tenho de sair
Num carro de boi ir por aí
Estrada de terra que só me leva

Nunca mais me traz
Que vontade de não mais voltar
Quanta  coisa que vou conhecer
Pés no chão e os olhos vão
Procurar onde foi
Que eu me perdi
Num carro de boi ir por aí
Ir numa viagem que só traz
Barro, pedra, pó e nunca mais