discografia

Águas Memórias

Resenha

Acontece que nós nascemos e fomos criados em cidades construídas em torno de rios – tal como grande parte das que foram surgindo no centro-sul do Brasil. Tupaciguara/MG, cidade natal da Andrea, tem suas fronteiras marcadas pelo enorme Paranaíba (antes rio, agora represa), que desemboca no Paraná e segue para sul, rumo ao mar. Nas cidades dos outros integrantes do trio, o rio não habita apenas o município, mas também o seu nome: Jundiaí/SP, cidade do Daniel, é, ao mesmo tempo, o nome tupi de uma espécie de peixe (jundiahy) e de seu principal rio; Mogi das Cruzes/SP, cidade de origem do João, mescla idioma português e indígena – mogi (m'boijy), em tupi-guarani, é rio das cobras. Esses rios primordiais, assim como tantos outros, hoje, sobrevivem suspirando baixinho, subtraídos de seu curso original, muitas vezes poluído ou escondido no subterrâneo.

Na conversa que propomos, descendentes orgulhosos de caipiras que somos, mora a busca pela memória desses rios, verdadeiros mananciais de histórias, de sons, de música – folias de reis, modas de viola, guarânias, cateretês, cururus, toadas... E mora também a reinvenção dessa memória, nesse novo tempo tão transformado. Conversa Ribeira navega em direções apenas aparentemente opostas: busca o universal enquanto, ao mesmo tempo, descobre e recria o que é tão fundamental e particular da gente que viveu e ainda vive, das águas desses rios.

Assim, imaginamos Águas Memórias como o curso de duas viagens em sentidos espelhados: rio acima e rio abaixo. Em ambas as viagens visitamos temas universais: a nostalgia por uma felicidade que já não é possível alcançar; a dor do amor; a força espantosa da natureza e do homem; a tragédia e a morte. Margeamos também o que é singular na prosa do caipira, no seu modo astuto e particular de ver o mundo e, por fim, apresentamos as ressonâncias dessas contemplações, em nosso fazer musical.

Neste novo trabalho, oferecemos nosso olhar para um repertório em que cada canção é um universo em si mesma, com suas personagens e narrativa, sua sonoridade e linguagem expressiva. Juntas, elas reverberam a diversidade e riqueza da cultura caipira, construindo uma totalidade que abrange grandes compositores do gênero (Zé Carreiro, Carreirinho, João Pacífico, Raul Torres, Zé Fortuna, Tião Carreiro, Lourival dos Santos), canções de autores consagrados da música popular brasileira, sensíveis às profundezas ancestrais das culturas do interior do Brasil (Milton Nascimento, Dori Caymmi, Lupicínio Rodrigues, João Pernambuco) e revela vitalidade, ao apresentar nossas composições, ao lado de uma nova geração de artistas (Rogerio Santos, Zaca de Oliveira, Luis Felipe Gama), preocupados em transformar em frutos, seus enraizamentos.

 

Salvando a Residência

(Joaquim Antônio Miranda)

Louvado seja meu Deus ai
Acabamos de chegar ai ai
Acabamos de chegar ai ai ai

À casa desse devoto ai
Os três reis sabem adorar ai ai
Os três reis sabem adorar ai ai ai

Santo Reis chegou louvando ai
O senhor e a família ai ai
O senhor e a família ai ai ai

Vem trazer felicidade ai
O prazer e alegria ai ai
O prazer e alegria ai ai ai

Morro Velho

(Miton Nascimento)

No sertão da minha terra
Fazenda é o camarada que ao chão se deu
Fez a obrigação com força
Parece até que tudo aquilo ali é seu
Só poder sentar no morro
E ver tudo verdinho, lindo a crescer
Orgulhoso camarada
De viola em vez de enxada

Filho de branco e do preto
Correndo pela estrada atrás de passarinho
Pela plantação adentro
Crescendo os dois meninos, sempre pequeninos
Peixe bom dá no riacho
De água tão limpinha
Dá pro fundo ver
Orgulhoso camarada
Conta histórias pra moçada

Filho do senhor vai embora
Tempo de estudos na cidade grande
Parte, tem os olhos tristes
Deixando o companheiro na estação distante

Não esqueça amigo, eu vou voltar
Some longe o trenzinho ao deus-dará

Quando volta já é outro
Trouxe até sinhá mocinha para apresentar
Linda como a luz da lua
Que em lugar nenhum rebrilha como lá
Já tem nome de doutor
E agora na fazenda é quem vai mandar
E seu velho camarada
Já não brinca, mas trabalha

Minha Vida

(Carreirinho/Vieira)

Eu trago na lembrança quando era criança
Eu morava na roça e gostava da troça
Do monjolo d’água da casa de tábua
Quando o sol saía a invernada eu subia
Pras vaca leiteira tocar na mangueira
Fui moleque sapeca levado da breca
Gostava da viola inda eu ia na escola
Eu ia todo dia numa égua tordilha

Era o meu destino já desde menino
Pra ir nos fandango era igual a um curiango
As vez no arreio meu irmão já veio
Fazia lóro de imbira pra ir nos catira
Ficava do lado com o zóio estalado
Vendo sapatear mas não podia entrar
Bebia uns quentão já ficava entrão
Umas moda com alguém eu cantava também 


Com quinze ano de idade eu mudei pra cidade
Saí da escola já era rapazola
Deixei de estudar fui caixeiro num bar
Trinta mil réis por mês pra servir os freguês
Vendendo cachaça, aturando arruaça
Pra mim só foi boa a minha patroa
Vivia amolado com meu ordenado
Trabaiei sete mês, recebi só uma vez

Eu não via dinheiro, entrei de pedreiro
Pra aprender ofício mas foi um suplício
Um sol quente danado embolsando o telhado
As cadeira doía, eu me arrependia
Mas não tinha jeito era meter os peito
No duro enfrentei mas não me acostumei
Sou um pouco retaco, meu físico é fraco
Só pensar no trabaio quase que eu me desmaio 


Tive grande impulso com outro recurso
A viola é tão fácil é só mexer nos traço
Fazer moda boa quando o povo enjoa
Fazer moda dobrada e selecionada
Pras festa que for não passar calor
Evitar de beber pra voz não perder
Dinheiro no bolso vem com pouco esforço
Nesse meu céu de anil, divertindo o Brasil

Lembrança

(Zé Fortuna)

Lembrança, por que não foges de mim
E ajude a arrancar do peito essa dor
Afaste meu pensamento do seu
Porque vamos reviver esse amor

Amando nós padecemos iguais
Eu tenho o meu lar e ela também
É triste ser prisioneiro e sofrer
Sabendo que a liberdade não tem


Vai, lembrança não voltes mais
Para acalmar os meus ais
Nesse dilema de dor
Vai, para bem longe de mim
Não posso viver assim
Devo esquecer este amor

Lembrança, já imaginaste o que é 
Distante, dois corações palpitar
Querendo juntos viver sem poder
Com outra ter que viver sem amar

Enquanto você lembrança não for 
É esse o nosso dilema sem fim
Pensando nela eu vivo a sofrer
E ela também sofrendo por mim

Vai, lembrança não voltes mais
Para acalmar os meus ais
Nesse dilema de dor
Vai, para bem longe de mim
Não posso viver assim
Devo esquecer este amor

Conversa Ribeira

(Andrea dos Guimarães/Rogerio Santos)

A melodia ecoa
Trina o pássaro
Tem cheiro de café
E bolo de fubá 

Menino vem pra cá
É hora de banhar
Arruma esse terreiro
Que a noite vai chegar

O sino badalou
É hora de respeito
Lembrar da mãe do amor
Do rumo desse vento
Da luz desse suor
Que inunda o meu leito
Mistura o sal do amor
Com força de tormento

O cheiro no quintal
Na chuva que bateu
Na terra que molhou
O dia amanheceu

Menino vem pra cá
É hora de acordar
Arruma tua cama
Arranja esse bambá

O sino badalou
Há missa na capela
Rezar pro meu amor
Voltar com alimento
Partiu na lua nova
No rumo desse vento
A lágrima derrama
Na terra, meu lamento

Ventania

(João Paulo Amaral)

Morte do Carreiro

(Zé Carreiro/Carreirinho)

Isto foi no mês de outubro, regulava meio dia
O sol parecia brasa, queimava que até feria
Foi um dia muito triste, só cigarras que se ouvia
O triste cantar dos pássaros naquelas mata sombria

Numa campina deserta uma casinha existia
Na frente uma paiada onde a boiada remoía
Na estrada vinha um carro com seus cocão que gemia
Meu coração palpitava de tristeza ou de alegria


Lá no alto do cerrado, a sua hora chegou
O carro tava pesado e uma tora escapou
Foi por cima do carreiro e no barranco imprensou
Depois de uma meia hora que os companheiro tirou

Quando puseram no carro já nem podia falar
Somente ele dizia: tenho pressa de chegar
Os companheiro gritava numa toada sem parar
Já avistaram a taperinha e as crianças no quintal

Os galos cantaram triste ai ai ai ai
No retiro adonde eu moro ai ai ai ai

Já levaram ele pra cama, não tinha mais salvação
Abraçava seus filhinhos fazendo reclamação
Só sinto esses inocente ficar sem uma proteção
Fechou os olho e despediu desse mundo de ilusão

Chico Mulato

(Raul Torres/João Pacífico)

Na volta daquela estrada
Bem em frente uma encruzilhada
Todo ano a gente via
Lá no meio do terreiro
A imagem do padroeiro
São João da Freguesia

Do lado tinha fogueira
Em redor a noite inteira
Tinha caboclo violeiro
E uma tal de Terezinha
Cabocla bem bonitinha
Sambava nesse terreiro

Tapera de beira da estrada
Que vive assim descoberta
Por dentro não tem mais nada
Por isso ficou deserta

Morava Chico Mulato
O maior dos cantador
Mas quando Chico foi embora
Na vila ninguém sambou
Morava Chico Mulato
O maior dos cantador

Numa noite de São João
Tava tudo no serão
E tava Ramão, o cantador
Quando foi de madrugada
Saiu com Tereza pra estrada
Talvez confessar seu amor

Chico Mulato era o festeiro
Caboclo, bom violeiro
Sentiu frio seu coração
Tirou da cinta um punhal
E foi os dois encontrar
Era o rival, seu irmão

A causa dessa tristeza
Sabida em todo lugar
Foi a cabocla Tereza
Com outro ela foi morar

E o Chico acabrunhado
Largou então de cantar
Vivia triste o coitado
Querendo só se matar
E o Chico acabrunhado
Largou então de cantar


Hoje na volta da estrada
Em frente àquela encruzilhada
Ficou tão triste o sertão
Por causa de Terezinha
Essa tal de caboclinha
Nunca mais houve São João

Emagrecendo o coitado
Foi indo até se acabar
Chorando tanta saudade
De quem não quis mais voltar

E todo mundo chorava
A morte do cantador
Não tem batuque, nem samba
Sertão inteiro chorou
E todo mundo chorava
A morte do cantador

Ensolarada

(Luis Felipe Gama)

Que na vida nada assinalava
Nada não dizia nada
Nem miúda proteção
Valha Deus, me valha toda paga
Donde veio a adorada
Começada pelo chão

Precavia nem a mais que nada
Nada não ditava a saga
Nem mais mínima noção
E virou tornada idolatrada
Pelas guerras que jogava
Heroína sem perdão

Perfazida filha graça dos punhais
Filha dádiva dos ais
Marefeita sonho grande dos mortais
Sem aviso nem sinais
Plenilúnia sina vida que lhe faz
Majestade dos umbrais
Desapruma em glória
Desavisa a paz
Destempera os temporais

Transformou do fundo donde não há
A braveza inteira pra guerrear
O encanto todo com que matar

No vazio do vão do quase nada
Ela tão transfigurada
Vem do oco do sertão
Nada ali enfim lhe iluminava
Quanto fosse a ser amada
Qual lhe fora o coração

Fez-se assim de ser ensolarada
Fez-se a mais admirada
Pôs o mundo em suas mãos
Desmudou a tudo pela estrada
Sua sorte revirada
Fez a sangue e solidão

Joia na Vereda

(Daniel Muller/Zaca Oliveira)

Clareou, clareou
Uma nova lamparina
A noite após o trovão
A luz do contentamento
O relâmpago na lagoa
Um pendão de milho novo
O brilho de um céu contente
Clareou pedra no chão

Se encantou, se encantou
Uma donzela de branco
Uma joia na vereda
Um boi num prado aberto
Um lenço em dia de festa
Menino no velho engenho
Uma colmeia lá na mata
Encantou o mel e a cera

Se apagou, se apagou
Uma estrela grande e velha
Uma fogueira pra São João
Uma utopia vibrante
O instinto de saber
Um lampião relicário
Uma chama da verdade
Se apagou uma razão

Avoou, avoou
Uma ideia divina
Um besouro em sua calma
Uma abelha rainha
Um capucho de algodão
Uma sabiá tristonha
Um anjo de asas curtas
Avoou em breve alma
Avoou, avoou

 

A Estrada do Sertão

(João Pernambuco/Hermino Bello de Carvalho/Wilson Rodrigues)

Coisa que não arrenego
Nem tão pouco desapega
Ter gostado de você
Um gostar desenxavido
Encruado e recolhido
De ninguém se aperceber
Matutando vou na estrada
E nos meus óio a passarada
Faz um ninho pra você
Juriti me espreita triste
A jandaia não resiste
Chora junto por você

Nos teus olhos faz clarão
É um verde, um azulão
Tiê sangue furta-cor
Que me dá desassossego
E me suga que nem morcego
Mangando que é beija-flor
Não me encrespe a vida assim
Já me basta o que de mim
Essa vida caçoou
Não me faz essa graçola
De me abrir essa gaiola
Pra depois não me prender

Canta firme juriti
E me entoa uma canção
Sabiá me roça aqui, meu sabiá
Bem de junto ao coração
Pousa aqui meu colibri
Vê se tu tem pena de eu
Quero ser teu bacuri
Quero ser de vosmecê

Quanto mais cê desfeiteia
E me despreza
Mais me arrasto pra você

A Coisa Tá Feia

(Tião Carreiro/Lourival dos Santos)

Burro que fugiu do laço tá debaixo da roseta
Quem fugiu do canivete foi topar com a baioneta
Já está no cabo da enxada quem pegava na caneta
Quem tinha mãozinha fina foi parar na picareta
Já tem doutor na pedreira dando duro na marreta

A coisa tá feia, a coisa tá preta
Quem não for filho de Deus tá na unha do capeta

Criança na mamadeira já tá fazendo careta
Até o leite das crianças virou droga na chupeta
Já está pagando o pato até filho de proveta
Mundo velho é uma bomba, girando neste planeta
Qualquer dia a bomba estoura, é só relar na espoleta

A coisa tá feia, a coisa tá preta
Quem não for filho de Deus tá na unha do capeta

Quem dava caixinha alta já tá cortando a gorjeta
Já não ganha mais esmola quem andava de muleta
Faz mudança na carroça quem fazia na carreta
Colírio de dedo-duro é pimenta malagueta
Sopa de caco de vidro é banquete de cagueta

A coisa tá feia, a coisa tá preta
Quem não for filho de Deus tá na unha do capeta

Quem foi o rei do baralho virou trouxa na roleta
Gavião que pegava cobra já foge de borboleta
Se o Picasso fosse vivo ia pintar tabuleta
Bezerrada de gravata que se cuide e não se meta
Quem mamava no governo agora secou a teta

A coisa tá feia, a coisa tá preta
Quem não for filho de Deus tá na unha do capeta

 

Felicidade

(Lupicínio Rodrigues)

Felicidade foi-se embora
E a saudade no meu peito inda mora
E é por isso que eu gosto lá de fora
Porque sei que a falsidade não vigora


A minha casa fica lá detrás do mundo
Onde eu vou em um segundo
Quando começo a cantar


Meu pensamento parece uma coisa à toa
Mas como é que a gente voa
Quando começa a pensar

Alegre Menina

(Dori Caymmi/Jorge Amado)

Palácio real lhe dei um trono de pedraria
Sapato bordado a ouro, esmeraldas e rubis
Ametista para os dedos, vestidos de diamantes
Escravas para servi-la e um lugar no meu dossel
E a chamei de rainha, e a chamei de rainha
O que fizeste sultão de minha alegre menina


Só desejava a campina, colher as flores do mato
Só desejava um espelho de vidro pra se mirar
Só desejava do sol calor para bem viver
Só desejava o luar de prata pra repousar
Só desejava o amor dos homens pra bem amar
Só desejava o amor dos homens pra bem amar


No baile real levei a tua alegre menina
Vestida de realeza, com princesas conversou
Com doutores praticou, dançou a dança faceira
Bebeu o vinho mais caro, mordeu fruta estrangeira
Entrou nos braços do rei, rainha mas verdadeira
Entrou nos braços do rei, rainha mas verdadeira